OFICIAIS DE POLÍCIA E MÉDICOS

Resiliência

Curso de 10 horas em quatro encontros de 2h30, com base em Reivich e Shatté. Existe em duas versões que compartilham a camada conceitual e reescrevem os casos: a policial, entregue a oficiais da PMDF, e a médica, em curso agora. Os sites das duas versões são de turma e ficam fora de busca.

Por que este curso existe

Sou pediatra há vinte anos no Hospital Regional de Taguatinga, preceptor da Residência em Pediatria desde 2011, e oficial médico da Polícia Militar do Distrito Federal desde 2009, onde hoje chefio o Centro Médico. São duas populações que acompanho por dentro, de dois lugares diferentes: o da assistência e o da gestão de saúde.

Ao longo desses anos, uma coisa foi ficando evidente. Nas duas populações o sofrimento psíquico aparece tarde, quando já virou afastamento, adoecimento ou desempenho que despenca. E nas duas falta a mesma coisa antes disso: ninguém ensinou o mecanismo. O médico aprende a fisiologia do choque e não aprende a do próprio estresse. O policial treina a resposta na crise e não treina o que fazer com o corpo quando a adrenalina desce, horas depois, longe da ocorrência.

Psicoeducação é exatamente essa peça que falta. Ela não trata quem já adoeceu, e não substitui atendimento especializado. Ela ensina o mecanismo a quem ainda está de pé, com vocabulário e ferramenta, para a pessoa reconhecer o que está acontecendo com ela enquanto ainda dá tempo de agir. É promoção de saúde mental, e é a intervenção que cabe a mim nos dois papéis que ocupo.

Foi por isso que fui estudar formalmente o assunto, em vez de improvisar a partir da experiência clínica. Fiz MBA em Psicologia Positiva (IPOG), formação em Mindfulness pelo programa MBHP da UNIFESP e formação de instrutor de Yoga. Só então construí o curso, e construí a partir de fonte sólida, não de compilação de palestra motivacional. Dou as aulas eu mesmo, nas duas versões.

O que é

São 10 horas-aula em quatro encontros de 2h30, para turmas fechadas de cerca de 25 pessoas. A base é The Resilience Factor, de Karen Reivich e Andrew Shatté (2002), uma das obras de referência da área. A espinha do curso são as seis competências consolidadas na literatura de resiliência (autoconsciência, autorregulação, otimismo, agilidade mental, forças de caráter e conexão), e as sete chaves do livro entram dentro delas como ferramentas concretas.

Há um precedente que orientou o desenho da versão policial: o Master Resilience Training do Exército americano, que adapta esse mesmo livro para uniformizados e já treinou dezenas de milhares de sargentos desde 2009. Trabalhar em cima de um programa com essa rodagem foi uma escolha deliberada, e evitou que o curso nascesse de intuição minha sobre o que funciona em sala.

Todo encontro tem prática: vinhetas para discussão em grupo, dinâmicas em duplas e, no fechamento, um plano pessoal escrito em sala, à mão, com dez minutos de silêncio reservados para isso. O que o aluno leva para casa não é o resumo do livro. É o plano dele.

Mapa dos quatro encontros

EncontroTemaFerramentas
1FundamentosFisiologia do estresse, sinais de sobrecarga, repertório de recuperação
2Detectar pensamentosModelo ABC, oito armadilhas de pensamento, icebergs (crenças de base)
3Transformar e regularChecagem de evidências, decatastrofização, resiliência em tempo real, ferramentas somáticas e mindfulness
4Outras dimensõesEstilo explanatório e otimismo, conexão, propósito e sentido, dano moral

Duas versões, uma policial e uma médica

As duas estão em uso. A policial foi entregue à turma de 2026 e a médica está em curso neste momento. Foram construídas com o mesmo modelo de duas camadas: a camada conceitual é comum (fisiologia, ABC, armadilhas, icebergs, ferramentas de regulação, dano moral como construto), e a camada situada, que é onde o curso encosta na vida de quem está na sala, foi inteiramente reescrita de uma para a outra. Mudam as aberturas, os exemplos, as vinhetas e as tarefas entre encontros.

Essa separação não é detalhe de produção. É o que impede que o curso vire palestra genérica servida a plateias diferentes. Um oficial reconhece na hora quando o exemplo foi escrito para outra profissão, e a partir daí ele já não está mais na sala.

Versão policial. Escrita para oficiais da Polícia Militar do Distrito Federal e entregue na disciplina "Autoeficácia em Saúde" do CAO 2026. As vinhetas são situações de comando e de gestão de seções pequenas. Tem avaliação somativa: banco de 60 itens de certo ou errado, cada um com gabarito e um comentário curto de princípio, para a prova funcionar também como devolutiva depois de corrigida.

Versão médica. Em andamento agora, com turma em sala. Escrita para médicos, com caso central e vinhetas ancorados na residência de pediatria, reconhecíveis também por quem faz plantão, chefia equipe ou acompanha residentes. Não tem prova: a consolidação vem das tarefas entre encontros, das dinâmicas e do plano de continuidade. O bloco de dano moral (moral injury) é mais desenvolvido aqui, apoiado em Talbot e Dean (2018), com a ressalva explícita de que o termo não tem relação com o sentido jurídico de "dano moral" em português.

Onde o curso para

Uma sala de aula sobre estresse e sofrimento mexe em coisa viva, e parte da qualidade do trabalho está em saber onde ele termina.

O bloco sobre trauma é informativo, e não experiencial: ninguém é convidado a revisitar a própria experiência em público. As dinâmicas têm regra explícita para não virarem sessão de desabafo, e o gabarito de cada uma traz os cuidados de condução, incluindo o aviso que vai antes das práticas somáticas, porque memória somática existe e pode aparecer. Os canais de apoio institucionais são apresentados em sala. O curso é psicoeducação para quem está de pé, e quem precisar de mais do que isso sai da sala sabendo para onde ir.

O que a primeira turma disse

A turma de oficiais respondeu a uma avaliação anônima e voluntária ao final: 15 respostas de cerca de 25. NPS +67, sem nenhum detrator, nota geral 9,27 e aplicabilidade percebida de 4,40 em 5.

O que fiz com isso importa mais do que os números. As respostas abertas e os itens de "medida certa" mostraram que a carga horária era curta para o conteúdo e que o quarto encontro precisava ser redesenhado. As duas coisas viraram plano de revisão, e valem para as duas versões.

Para ver o material

Os sites das duas versões são de turma e ficam fora de busca, então não há link aqui. Se você quiser conhecer o curso por dentro, apostila, slides, dinâmicas e o desenho da avaliação, é só me escrever pela página de contato. Tenho gosto em mostrar, e em conversar sobre levar o curso para outras instituições que enfrentam o mesmo problema.