Quando compreender importa mais que lembrar
Quatro desconhecidos numa sala em Brasília. Um cronômetro de 36 horas. Um problema que nenhum de nós tinha resolvido antes — e que nenhum de nós, sozinho, teria conseguido nomear direito.
Assim começa a história do Adere Junto.
O que é o HSIL Hackathon
O Health Systems Innovation Lab é um laboratório da Harvard T.H. Chan School of Public Health dedicado a inovação em sistemas de saúde. Todo ano, o HSIL organiza um hackathon global com hubs em diferentes países — e a equipe vencedora de cada hub entra num pipeline de incubação com mentoria direta de Harvard. Em abril de 2026, o Hub Brasília aconteceu na AGSUS, organizado pelo DECOOP do Ministério da Saúde. Dezesseis equipes foram distribuídas entre três desafios: fragmentação dos cuidados, letramento em saúde e barreiras de comunicação em saúde. Nove equipes atacaram o primeiro; as outras sete — incluindo a nossa — disputaram entre si nos desafios 2 e 3. Na final, o melhor de cada bloco se enfrentaria.
Escolhemos o Desafio 2: letramento em saúde. A pergunta era direta: "Como podemos utilizar a Inteligência Artificial para ampliar o conhecimento em saúde e apoiar a população na tomada de decisões mais informadas?"
A resposta parecia óbvia — e era exatamente aí que morava a armadilha.
Da informação à compreensão
A primeira ideia que surge quando alguém fala em "IA para letramento em saúde" é um chatbot que responde perguntas médicas com fontes confiáveis. Um RAG turbinado com bulas da ANVISA e protocolos do Ministério da Saúde. Pensamos nisso. Todas as outras equipes da nossa categoria também pensaram em variações dessa ideia.
O problema é que isso já existe. Em 2026, qualquer startup de IA entrega um verificador de informações em saúde em semanas. O diferencial é zero.
O que mudou o rumo foi uma pergunta que veio da vivência clínica: por que pacientes crônicos não aderem ao tratamento? A resposta convencional é "porque esquecem" ou "porque não têm disciplina". Vinte anos de pediatria me ensinaram que essa resposta está errada. Pacientes não aderem porque não entendem.
A não-adesão ao tratamento medicamentoso é um dos problemas mais caros e mais silenciosos da saúde pública. A OMS estima que 50% dos pacientes crônicos no mundo não seguem o tratamento prescrito. No Brasil, isso se traduz em 10 a 25% das internações em idosos — internações evitáveis, que custam bilhões ao SUS e que, no fim, representam sofrimento que não precisava existir.
Eu convivo com isso há duas décadas. Todo pediatra convive. A mãe que volta ao pronto-socorro com a criança pior porque suspendeu o antibiótico "quando melhorou". O avô diabético que toma metformina "quando lembra". A hipertensa que parou a losartana porque "não sentia nada". Não é negligência. É um sistema que dá 15 minutos de consulta para explicar cinco medicamentos, entrega uma receita manuscrita que o próprio farmacêutico tem dificuldade de ler, e depois espera que o paciente se vire sozinho pelos próximos três meses.
O paciente não falha. O sistema falha com o paciente.
Quando nomeamos o problema dessa forma — não como "falta de informação" mas como "falta de compreensão dentro de um sistema que não educa" — a solução mudou de natureza. Não era mais um chatbot. Era uma plataforma que transforma cada lembrete de medicação numa microaula contextual: não apenas "tome a losartana às 8h", mas "tome a losartana, que protege seu coração relaxando os vasos sanguíneos; parar de tomar aumenta o risco de AVC". Ao longo de semanas, o paciente deixa de ser passivo e passa a entender por que toma cada remédio. A adesão emerge como consequência natural da compreensão — e a evidência sustenta isso: uma meta-análise no JAMA Internal Medicine com mais de 2.700 pacientes mostrou que lembretes por SMS dobram a chance de adesão ao tratamento (Thakkar et al., 2016). No Brasil, um estudo em Maringá com 403 hipertensos e diabéticos demonstrou que mensagens educativas via WhatsApp pela UBS aumentaram a adesão em cerca de 15% (Sartori et al., 2020).
Essa distinção — entre informar e educar — foi o que nos separou dos outros seis grupos. E o princípio ético que a sustentava talvez tenha sido o elemento mais marcante do pitch: "Não queremos criar dependência do app. Queremos criar autonomia. Com o tempo, o paciente se torna expert no próprio tratamento e pode se libertar da ferramenta." Isso é raro em health tech — e a banca reconheceu.
Chamamos a ideia de Adere Junto — porque ninguém cuida sozinho.
Quatro desconhecidos, um sorteio
A organização do hackathon montou os grupos por sorteio, misturando perfis para criar equipes heterogêneas. Nenhum de nós se conhecia antes de sentar naquela mesa na manhã do dia 10 de abril.

Nicilany, sanitarista com anos em comunicação em saúde, trouxe algo que eu achava que já sabia mas não sabia: é sempre possível melhorar na personalização da comunicação com o paciente. Não basta traduzir linguagem técnica para linguagem simples — é preciso entender como aquela pessoa específica recebe e processa informação. Parece óbvio. Na prática, é uma habilidade que poucos dominam e que eu nunca tinha visto articulada com tanta clareza.
Stefane, farmacêutica do SUS, ampliou minha visão sobre o contexto do paciente no sistema. Como médico, eu vejo o paciente na consulta. Stefane vê o paciente na farmácia, no balcão, tentando entender uma receita. Ela trouxe uma perspectiva de linguagem centrada no ser humano que mudou a forma como escrevemos a proposta. E no pitch final, fez algo que nenhum de nós teria pensado: dramatizou. No meio da apresentação, fingiu sentir-se mal por ter esquecido de tomar um remédio — e a banca sentiu na pele o que Dona Ana, nossa persona de 67 anos, sente todo dia. Quando a plateia deixa de ouvir sobre um problema e passa a sentir o problema, a avaliação muda.
Charles, cientista de dados, me ensinou uma lição de humildade técnica. Eu, empolgado com a arquitetura do sistema, queria incluir detalhes técnicos na apresentação — camadas de IA, pipelines de RAG, modelos de linguagem. Charles, que domina essa parte mais do que eu, fez o oposto: traduziu a funcionalidade inteira em linguagem que qualquer pessoa entenderia. A banca não precisava saber o que é um VLM. Precisava entender que o paciente fotografa a receita e recebe uma explicação que faz sentido. Dominar a complexidade e escolher não exibi-la — essa foi a lição.
O grupo que mereceu o primeiro lugar
Na final, enfrentamos o vencedor do Desafio 1 — fragmentação dos cuidados, o bloco com nove equipes. A proposta vencedora, Onconavi, atacava um problema concreto e urgente: a jornada fragmentada do paciente oncológico no SUS, perdido entre consultas, exames e tratamentos que ninguém coordena. A solução era um sistema de navegação inteligente, desenhado para guiar o paciente através desse labirinto. O problema era real, a solução era elegante e a execução foi impecável. Mereceram.
O que fica
Trinta e seis horas não são suficientes para construir um produto. São suficientes para provar que uma tese tem sustentação, que quatro desconhecidos podem criar algo coerente sob pressão, e que nomear bem um problema é mais valioso do que ter a resposta pronta.
O Adere Junto existe hoje como proposta documentada, com arquitetura desenhada, evidência levantada e um pitch que convenceu especialistas. Se vai virar produto, depende de variáveis que ainda não controlo — parcerias, financiamento, tempo. O que já é real é o aprendizado: que letramento em saúde é a raiz invisível de um dos problemas mais caros da saúde pública, e que a tecnologia mais sofisticada do mundo não substitui a capacidade humana de entender o que o outro precisa ouvir.
Saí do hackathon pensando no que vem depois. Não só para o Adere Junto — para tudo. Para os sistemas que quero construir, para os cursos que quero dar, para a ponte entre medicina e tecnologia que venho construindo tijolo por tijolo desde que decidi aprender a programar aos 44 anos. Segundo lugar num hackathon de Harvard, com um grupo montado por sorteio — não sei se é o caminho certo, mas sei que é um caminho, e que quero ver onde ele leva.
Nomear bem um problema é o primeiro ato de resolvê-lo.