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Memento mori — ou por que uso IA para me ver envelhecer

Na Roma antiga, quando um general voltava vitorioso de uma campanha, recebia um triunfo — um desfile público com toda a pompa que o Império podia oferecer. Mas atrás dele, no carro, ia um escravo com uma única função: sussurrar no seu ouvido, repetidamente, "Respice post te. Hominem te memento." Olhe para trás. Lembre-se de que você é apenas um homem.

Lembre-se de que vai morrer.

Os estoicos transformaram esse sussurro em filosofia. Sêneca escreveu que não é que temos pouco tempo de vida — é que desperdiçamos muito dele. Marco Aurélio, imperador de Roma, repetia para si mesmo nas Meditações: "Você poderia deixar a vida agora. Que isso determine o que você faz, diz e pensa." Epiteto, que nasceu escravo e sabia o que era não ter controle sobre nada, ensinava seus alunos a manter a morte diante dos olhos todos os dias — não como tormento, mas como antídoto contra o medo e a procrastinação. Para os três, lembrar da morte não era fraqueza. Era a condição para viver com intenção.

A tradição atravessou séculos. Na pintura holandesa do século XVII, os quadros de vanitas colocavam crânios ao lado de flores, velas apagando e ampulhetas — em meio a cenas de abundância e beleza. Nos retratos renascentistas, nobres posavam com um crânio sobre a mesa, não por morbidez, mas por sabedoria. A mensagem era sempre a mesma: tudo isso é passageiro. Use bem.

Vanitas — Philippe de Champaigne, c. 1671. Tulipa, crânio e ampulheta: beleza, morte e tempo.
Vanitas — Philippe de Champaigne, c. 1671. Tulipa, crânio e ampulheta: beleza, morte e tempo.

Memento mori nunca foi convite ao desespero. Era — e é — um calibrador de prioridades. Quando você lembra que vai morrer, o urgente falso perde força e o importante real ganha nitidez.

A tecnologia contra a morte

Nós sempre tentamos adiar a morte. Das ervas medicinais dos curandeiros antigos à biotecnologia contemporânea, a história humana é, em parte, a história dessa negociação. O desejo de viver é tão fundamental quanto respirar.

Todavia, a tecnologia não serve apenas para prolongar a vida, mas para prolongar a aparência de juventude. A medicina estética movimenta bilhões vendendo a ilusão de que envelhecer é opcional — e que os sinais visíveis da passagem do tempo são defeitos a corrigir, não marcas de uma vida vivida. Não estou falando de reconstrução ou de saúde dermatológica. Estou falando do autoengano coletivo de tratar envelhecimento como doença — a mesma fuga disfarçada de solução que explorarei no próximo post, sobre uso intencional de telas. A intenção por trás da tecnologia importa aqui também.

Mas nem toda tecnologia médica é fuga. Antibióticos, vacinas, cirurgias, insulina — são tecnologias que genuinamente preservam vidas que seriam ceifadas cedo demais. A diferença entre a seringa de botox e a seringa de insulina não está no objeto. Está na intenção: uma esconde a finitude, a outra permite conviver com ela.

Quarenta e dois

Eu tinha 42 anos quando recebi o diagnóstico de LADA — Latent Autoimmune Diabetes in Adults. Para quem não conhece: é uma forma de diabetes autoimune que aparece na vida adulta. O sistema imunológico, por razões que a ciência ainda não compreende completamente, decide atacar as células beta do pâncreas — as que produzem insulina. Sem insulina, glicose não entra nas células. Sem glicose nas células, você morre.

Quarenta e dois. A resposta para a vida, o universo e tudo o mais — segundo o Deep Thought. Achei que, se o destino ia me dar um diagnóstico crônico, pelo menos teve senso de humor com o timing.

Como médico, eu sabia exatamente o que significava. Não houve choque dramático nem negação cinematográfica. Houve uma recalibração silenciosa: a partir de agora, minha vida depende de uma molécula que meu corpo decidiu parar de produzir — e de uma tecnologia que a substitui.

Insulina como memento mori

Aqui está o que ninguém me avisou sobre ser insulinodependente: quase toda vez que aplico insulina antes de uma refeição, passa pela minha cabeça — às vezes como pensamento, às vezes apenas como sensação — que sem aquele gesto eu simplesmente não sobreviveria. Não em anos. Em semanas.

Não é angústia. É lucidez. É como ter um escravo romano sussurrando no ouvido três vezes ao dia, antes do café, do almoço e do jantar: lembre-se.

A maioria das pessoas precisa de um susto — uma doença, um acidente, a perda de alguém próximo — para lembrar que a vida tem prazo. Eu tenho uma seringa. É menos dramático e mais frequente. Com o tempo, deixou de ser peso e virou prática. Um memento mori embutido na rotina.

E o efeito é o que os romanos e os pintores holandeses sabiam: quando você lembra que vai morrer, fica mais fácil decidir o que importa. O urgente falso perde o poder de sequestrar sua manhã. A opinião alheia perde peso. O que sobra é surpreendentemente simples — e surpreendentemente suficiente.

Um exercício moderno

De vez em quando, faço algo que pode parecer estranho: uso inteligência artificial generativa para criar imagens envelhecidas de mim mesmo. Não versões glamorizadas, com cabelo grisalho estratégico e rugas de comercial. Versões realistas — ou o mais realistas que a IA consegue — de como posso parecer aos 75, 95 anos.

Não faço isso por vaidade nem por vaidade inversa. Faço porque funciona. Ver meu próprio rosto envelhecido é um memento mori visual, concreto e imediato. Não é um conceito abstrato sobre mortalidade — é a minha cara, com décadas a mais, me olhando de volta. E toda vez que faço isso, algo recalibra por dentro. Planos supérfluos perdem urgência. Relações importantes ganham.

Exercício de memento mori — imagem envelhecida gerada por IA
Exercício de memento mori — imagem envelhecida gerada por IA

Se o general romano precisava de um escravo para lembrá-lo, e os holandeses precisavam de crânios na pintura, talvez nós precisemos de uma IA e um prompt. A ferramenta muda. A sabedoria, não.

Memento mori não é pessimismo — é o oposto. Lembrar da morte é o que dá urgência ao que importa e leveza ao que não importa.

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