O futurismo do Vale do Silício tem 130 anos
Vida estendida, colônias em Marte, upload de consciência — tudo isso foi proposto por um grupo de pensadores russos entre 1860 e 1928, com mais coerência filosófica do que a versão atual. Como cheguei lá, e o que se perdeu no caminho.
Sam Altman investiu 180 milhões de dólares na Retro Biosciences, cuja missão é simples: "adicionar dez bons anos à vida humana". Bryan Johnson, CEO biohacker, fez uma plasmaférese intergeracional com o pai de setenta e o filho de dezessete — depois admitiu não ter encontrado benefício mensurável e abandonou o procedimento.
Nada disso é ideia nova.
Jeff Bezos sustenta a Blue Origin com a aposta de que um trilhão de humanos pode viver em colônias rotativas no espaço. Elon Musk fundou a SpaceX com a meta declarada de colocar um milhão de pessoas em Marte até 2050 — meta recentemente postergada, mas mantida como horizonte. Dmitry Itskov, empresário russo, criou em 2011 a 2045 Initiative — um roteiro especulativo para transferir a personalidade humana a suportes artificiais.
Tudo isso foi proposto — com mais coerência filosófica, aliás — por um grupo de pensadores russos entre 1860 e 1928, sob o nome de cosmismo russo. A maioria deles morreu pobre ou foi silenciada por Stálin a partir dos anos 1930. E é cosmismo russo — não soviético: Stálin perseguiu o movimento como "idealismo místico", e Alexander Chizhevsky, um de seus representantes, passou oito anos em campos de trabalho e mais oito em exílio supervisionado no Cazaquistão por isso.
Como cheguei aqui
A trilha foi quase acidental. Comecei o ano em Ciência da Computação na FIAP, e o projeto integrador do primeiro ano é o Aurora SIGER — um sistema de gerenciamento de riscos para uma colônia espacial fictícia, desenvolvido em sete fases. Da simulação de pouso em Marte, passei a pensar em ESG aplicado a um futuro fora da Terra: que ética temos para uma humanidade interplanetária? Em busca de contexto narrativo, mergulhei em For All Mankind, a série da Apple TV+ que reescreve a corrida espacial como se ela nunca tivesse acabado. Daí para o futurismo da evolução humana foi um passo. E daí, por referências cruzadas, tropecei no cosmismo russo, um movimento filosófico curiosíssimo, do final do século XIX. Tem, como algumas referências, Russian Cosmism, coletânea editada por Boris Groys que a MIT Press publicou em 2018, com muitos desses textos traduzidos ao inglês pela primeira vez. Red Star, o romance utópico de Bogdanov de 1908 ambientado num Marte comunista, tem tradução pela Indiana University Press. Comecei a estudar o tema há duas semanas. Não sou autoridade — sou turista impressionado, relatando a estrada.
Quatro figuras, quatro ecos contemporâneos
Correndo o risco de ser reducionista, em uma frase, o cosmismo russo defende que a humanidade tem o dever moral supremo de derrotar a morte, ressuscitar literalmente todos os ancestrais e colonizar o cosmos — usando ciência. Não é metáfora. É projeto, com cronograma e orçamento moral. As quatro figuras a seguir construíram pedaços diferentes desse mesmo projeto.
Nikolai Fedorov (1829-1903) — bibliotecário no Museu Rumiantsev (hoje Biblioteca Estatal Russa). Vivia em pobreza monástica, dormia sobre um baú e doava o salário. Sua tese da Tarefa Comum era brutal: toda atividade humana que não contribuísse para derrotar a morte e ressuscitar os ancestrais era desperdício moral. Riqueza individual, guerra, prazer egoísta — tudo desperdício. Cabe hoje na criônica, na longevidade radical, em quem quer dez bons anos a mais — só que sem o eixo coletivo: o objetivo virou não morrer eu, não ressuscitar os avós.
Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935) — surdo desde os 9 anos, autodidata, professor de matemática em escola rural em Kaluga. Em 1903 publicou o cálculo da equação do foguete, que ainda hoje é fundamento da cosmonáutica. Em paralelo, escreveu dezenas de ensaios sobre estações orbitais, colonização planetária, cosmoarquitetura e até panpsiquismo cósmico — a tese de que toda matéria é proto-consciente. Reaparece hoje em SpaceX, Blue Origin, Marte como destino — só que sem a metafísica que sustentava a visão original.
Vladimir Vernadsky (1863-1945) — geoquímico, desenvolveu (em diálogo com Édouard Le Roy e Teilhard de Chardin) o conceito de noosfera: a camada pensante do planeta, sucessora da geosfera (mineral) e da biosfera (vida). Sua obra A Biosfera (1926) antecipa intuições que depois reapareceriam na hipótese Gaia (a Terra como sistema vivo auto-regulado) e no debate do Antropoceno (a humanidade como nova força geológica do planeta). Ressoa hoje nos debates sobre limites planetários e sobre IA como nova camada cognitiva da Terra.
Alexander Bogdanov (1873-1928) — médico, filósofo, romancista, co-fundador do bolchevismo (rompeu com Lenin em 1909). Fundou em 1926 o Instituto de Hematologia em Moscou, baseado na hipótese de que transfusões sanguíneas entre gerações rejuvenesceriam os mais velhos. Morreu em 1928 numa transfusão experimental em si mesmo. A comparação com Bryan Johnson é inevitável — embora tecnicamente não idêntica: Bogdanov trabalhava com transfusão sanguínea, Johnson fez troca de plasma. O gesto é o mesmo.
Não foi maluco isolado: a tradição literária
Quando li sobre Fedorov pela primeira vez, achei que era figura marginal — místico russo do século XIX que ninguém levou a sério em vida. Errado. Tolstoi o procurava regularmente. Soloviev o consultava nos anos 1880 e 1890. E Dostoiévski, depois de ler suas ideias em 1878, escreveu: "Em essência, concordo absolutamente com esses pensamentos. Li-os como se fossem meus." Há quem leia a pergunta de Ivan em Os Irmãos Karamazov — "Quem não deseja a morte do pai?" — como diálogo com Fedorov pela porta inversa: onde o cosmista propõe ressuscitar o pai, o atormentado dostoievskiano deseja matá-lo. Os três pilares da literatura russa do século XIX dialogavam com Fedorov. O cosmismo não é nota de rodapé esotérica: é parte da espinha dorsal do pensamento russo moderno.
O que se perdeu no caminho
Aqui mora a parte desconfortável. O cosmismo russo original era ferozmente coletivo e impessoal. Fedorov defendia ressuscitar os mortos — todos eles, nomeadamente — não preservar o próprio ego. A Tarefa Comum era projeto transgeracional: era dever filial-cósmico, não vaidade individual. Riqueza desigual, segundo Fedorov, era desperdício moral porque desviava recursos que pertenciam à ressurreição.
A versão contemporânea do Vale do Silício inverteu esse eixo. Bryan Johnson não quer ressuscitar os avós, quer não morrer ele. Sam Altman não está construindo um projeto coletivo intergeracional, está investindo num horizonte de longevidade pessoal acessível a quem pode pagar. A 2045 Initiative do Itskov, que dialoga abertamente com o neocosmismo russo, esvaziou a dimensão moral original e ficou só com a fantasia técnica de imortalidade individual.
Isso não torna essas apostas irrelevantes — Bezos e Musk estão construindo de fato foguetes que Tsiolkovsky só calculou no papel, e isso é admirável. Mas vale notar: o cosmismo russo é mais radical que o transhumanismo do Vale do Silício, e — paradoxalmente — menos egoísta.
E há ainda uma terceira camada contemporânea, talvez a mais inquietante: a mesma linhagem reaparece também como fantasia estatal de permanência.
O cosmismo voltando ao Kremlin
Em setembro de 2025, na parada militar de oitenta anos do fim da Segunda Guerra em Pequim — Kim Jong Un caminhava ao lado —, Putin e Xi Jinping foram flagrados por um microfone aberto discutindo transplante contínuo de órgãos, viver até cento e cinquenta anos, e a possibilidade de imortalidade técnica. Não foi conversa solta de fim de evento: o Estado russo vem financiando programas oficiais de longevidade, anunciados como projeto nacional federal sob a marca "New Health Preservation Technologies", com mandato de combater o envelhecimento.
A ironia histórica é completa. O Estado russo que perseguiu o cosmismo a partir dos anos 1930 — que mandou Chizhevsky para o Gulag, depurou Tsiolkovsky de tudo que era místico, neutralizou a herança de Bogdanov (morto em 1928, antes dos expurgos) — é o mesmo Estado que hoje, oito décadas depois, financia oficialmente as mesmas perguntas. O cosmismo voltou ao Kremlin pela porta dos fundos, sem o rigor filosófico de Fedorov, sem a visão de unidade cósmica de Tsiolkovsky, sem o coletivismo de Bogdanov. Ficou só o pedaço que serve a regimes personalistas interessados em prolongar permanência biológica e política.
O que fica
Não se trata de menosprezar quem hoje faz essas apostas. Trata-se de notar que as perguntas que parecem nascer agora têm bisavós — alguns ilustres, outros incômodos. Saber disso muda o jeito de pensar sobre o presente. Mais humildade sobre o que é "novo". Mais critério sobre o que se ganhou e o que se perdeu. E a estranha companhia de descobrir que um bibliotecário russo — que dormia sobre um baú e doava o salário — pensou, com mais radicalidade ética do que qualquer bilionário contemporâneo, nas perguntas que hoje fazem manchete na Bloomberg.
Não escrevo isso em concordância com essas ideias — escrevo porque suspeito que essas perguntas não vão me deixar em paz. E talvez não devam mesmo. O que significa ser humano quando a engenharia genética oferece reescrever cada limite biológico? O que sobra de "nós" se a consciência puder ser desacoplada do corpo? São perguntas desconfortáveis, e eu não tenho resposta. Mas sentar com elas — sem expectativa de resposta limpa — talvez seja uma das formas mais honestas de habitar esse tempo.
As perguntas urgentes do nosso tempo raramente são novas. O que muda é quem as faz, com que ferramentas, e em nome de quem.